quinta-feira, 29 de maio de 2008

O choro...

Há um gênero musical que quando em vez tem algum destaque nos meios de comunicação, mas em geral fica restrito ao público mais especializado. Trata-se do Choro, esse sofisticado e criativo gênero que destaca a versatilidade do músico brasileiro, que, a exemplo da "Bossa Nova" no Brasil e do Jazz nos Estados Unidos, poderia ser melhor explorado como "marca" e produto nacional.

É de se lamentar que esse potencial seja tão pouco explorado em termos de cultura popular e valorização do que é nosso, em detrimento de tão baixa qualidade média da programação de emissoras de rádio e TV, salvo honrosas e, cada vez mais raras, exceções.

Outra oportunidade desperdiçada é divulgá-lo mais intensamente no exterior como "produto" de exportação que poderia gerar empregos para músicos e gerar divisas para o País. Nos lugares em que o choro penetrou por interesse e iniciativa de fãs do gênero, como o Japão, por exemplo, o sucesso mostra que isso é plenamente viável, desde que haja ações no sentido de promover maior visibilidade da música brasileira em mercados potenciais.

Li recentemente o excelente livro "Choro: do quintal ao municipal" do cavaquinista e pesquisador musical Henrique Cazes que, em pouco mais de duzentas páginas nos traz um panorama ilustrado e bem documentado do surgimento e evolução do gênero no Brasil. Cazes ressalta que, a partir da inspiração de músicos do século XIX em interpretar com criatividade gêneros importados como a polca, a schottish, a valsa e o tango, entre outras, criou-se o choro como modo brasileiro, preconizado por pioneiros como Joaquim Callado, Anacleto de Medeiros, Chiquinha Gonzaga e os geniais Ernesto Nazareth e Pixinguinha.

O que se observou ao longo do tempo foi uma seqüência de virtuoses do gênero, com destaque para Jacob do Bandolin, Waldir Azevedo e Radamés Gnatalli, para destacar alguns, mas que felizmente não parou por aí. A cada ano surgiram grandes músicos e hoje espalhados pelos poucos espaços de execução e apresentação pelo país afora se observa com relativa constância o surgimento de novos talentos.

Não querendo ser saudosista, mas resgatar algo que foi muito bom, que foi a iniciativa da criação do Clube do Choro, que funcionou em São Paulo, no final dos anos 1970 até o final dos oitenta, transformado em bar na Rua João Moura, em Pinheiros. Me lembro de apresentações memoráveis de Paulinho da Viola, Conjunto Época de Ouro, Nelson Cavaquinho e Roberto Silva, entre outros, além, é claro, de músicos pouco conhecidos do grande público, mas nem por isso menos talentosos, como Xixa (cavaquinho), Carioca (violão de sete cordas) e a potente voz de Rubão, um cantor fantástico, todos eles infelizmente já falecidos, e a revelação de jovens talentos como Miltinho Mori (bandolim), Charles (flauta), Danilo (bandolim), e muitos outros.

Era interessante observar a reação do público na rua, extasiado com as apresentações. O que mostra que grande parte da pouca penetração do Choro nas grandes massas certamente se deve muito mais ao desconhecimento do gênero e seus artistas, do que uma questão de gosto.

Infelizmente, os interesses imediatos das gravadoras e da mídia, assim como a ausência de iniciativas de educação musical básica da população continuam restringido a riqueza do choro a uma minoria privilegiada! Vamos mudar isso?


Já escutou um chorinho hoje!?
Minha dica de hoje é:

Jacob do Bandolim e Conjunto Época de Ouro - Vibrações (1967)

Segue link para baixar para quem se interessar!

http://lix.in/7bd5375c


...

Aqui em Blumenau - SC temos um trabalho muito bacana de um pessoal que se chama "Alegria do Choro". Gostaria de parabeniza - los pelo lindo trabalho proposto por eles!



Grande abraço.


Bruno Leonardo.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

O mundo...

O mundo vai se acabar em raves.
O mundo vai se acabar em Victor e Leo.
O mundo vai se acabar em desmatamento.
O mundo vai se acabar...
Acabar...
Acabar com a mente das pessoas...
Vamos todos virar zumbis alienados?!




*Nada contra música eletrônica e mto menos contra sertanejo (gosto não se discute). Mais isso ainda vai acabar com a mente das pessoas!

terça-feira, 13 de maio de 2008

"VIVA 13 DE MAIO NEGRO LIVRE NO BRASIL, MAIS NA BEM DA VERDADE FOI UM PRIMEIRO DE ABRIL".


Texto escrito por Claudia Eggert.
O encontro foi realizado pelo grupo Jaé de Itajjai. Foi muito bom por sinal!


Este final de semana fomos acampar. Era o Encontro Regional de Batuqueiros, em Camboriú.

Organizado pelo Jaé, grupo de maracatu e pesquisas rítmicas de Itajaí, o encontro teve a participação de quase 50 pessoas de 5 grupos diferentes: Jaé (Itajaí), Grupo Capivara (Blumenau), Arrasta Ilha (Florianópolis), Maracaeté e Estrela do Sul (ambos de Curitiba).

Na abertura na sexta feira à noite, todos se apresentaram e falaram um pouco de seus grupos, a história de cada um, sua situação em sua cidade.

Uma coisa que me chamou muito a atenção, foi que em todas as cidades, os grupos de maracatu enfrentam dificuldades de achar espaço para ensaio. A justificativa é que o maracatu não faz parte da cultura das cidades representadas.

Blumenau é de colonização alemã, Floripa e Itajaí, portuguesa e Curitiba, principalmente polonesa e italiana, dentre outras várias, todas européias.

Então me perguntei: só europeus construíram nossas cidades?

não exitiam índios e negros escravos?

Na época da escravatura, quase 50% da população brasileira era de escravos e o resto eram pessoas livres.. e brancas.

Ora, se a metade da população não era européia e sim africana, então a metade da cultura dos lugares deveria ser também africana. E é. Só que não é falado, pois para o brasileiro o que vem de fora é melhor. Leia-se de fora como Europa, ou mais atualmente EUA, África não é de fora, África não conta. África não tem ciência.

No texto anterior, a pesquisadora Rosane Volpatto afirma que a cultura negra está em todas as manifestações culturais, religiosas e cotidianas brasileiras. Todo mundo sabe disso.

Por que então continuar com a discriminação contra a cultura africana?
Por que então continuar com a afirmação de que a cultura do local é germânica ou portuguesa ou italiana somente?

O que acredito que deveria ser aumentado é a auto estima, a auto valorização das pessoas que representam esta cultura, pois por mais que acreditemos na influência dela na cultura brasileira, nós mesmos justificamos e achamos certo manter a tradição européia como principal e até única.

Não podemos pensar assim. Não podemos deixar que só as culturas européias sejam consideradas como base de tudo de bom que acontece no Brasil e que a cultura africana seja considerada a base de tudo de ruim que o brasileiro tem.
Nossa alegria mesmo frente às desgraças do dia-a-dia, nosso jogo de cintura, nossa raça, graça, nosso suingue, é tudo de origem africana.

A padroeira do Brasil é negra!!!!

A cultura nordestina é cultura brasileira, assim como a cultura gaúcha também o é, a mineira, a carioca, a capixaba....
Difundir as culturas locais é mostrar ao mundo que o Brasil é o país mais miscigenado, e não só nas cores das pessoas, mas na cultura também, e isso é bom.

O Brasil é um grande caldeirão onde todas as culturas do mundo se juntaram. E todas devem ser respeitadas.

É por isso que eu luto, pela igualdade de oportunidades, pela igualdade de direitos entre os sexos, pela igualdade de direitos entre as cores. Pela igualdade de valorização das culturas. Mas sempre respeitando as diferenças.

Claudia Eggert.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Baixo QI, nem vou comentar sobre isso por que não vou perder meu tempo.
Mais segue a entrevista ao Terra Magazine do grande Tom Zé sobre esse infeliz comentário de Antônio Dantas.

Boa leitura... Ahhh ressalto a explicação do Tom Zé quanto ao berimbau!!!

Para o cantor Tom Zé, as declarações do coordenador do curso de medicina da UFBA, Antônio Dantas, sobre o "baixo QI" (quociente de inteligência) dos baianos são uma "coisa inocente, completamente sem base".

- Alguns grupos são particularamente influencidados pela filosofia do niilismo americano que tá na televisão e aí aparecem esses fenômenos - critica.

As declarações foram dadas por Dantas à Folha de S. Paulo nesta quarta-feira para justificar o resultado desfavorável obtido pelo curso, o mais antigo do país, no Enade (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes). Os alunos tiveram nota 2 na avaliação - numa escala que vai de 1 a 5.

O coordenador do curso de medicina não foi localizado pela reportagem para comentar o assunto. Ele disse ainda que baiano "toca berimbau porque só tem uma corda. Se tivesse mais não conseguiria".

- Há uma exigência maior de sensibilidade para tocar o berimbau - defende Tom Zé. - O berimbau é uma coisa muito mais complexa do que essa coisa de uma corda só. Não foi feito para tocar música ocidental, foi feito para outra concepção de mundo - explica.

Ao fim da conversa, Terra Magazine agradeceu respeitosamente ao "senhor" Tom Zé pela atenção dada à reportagem.

- O senhor tá no céu, deixe de ser moleque - diverte-se.

A seguir os principais trechos da entrevista com Tom Zé.

Terra Magazine - O coordenador do curso de medicina da UFBA declarou que...
Tom Zé - Fale devagar que eu ouço mal.

O curso de medicina da UFBA teve um resultado ruim no Enade. O coordenador do curso, Antônio Dantas, atribuiu isso ao "baixo QI" dos baianos. O que o senhor acha disso?
(às gargalhadas) Que maravilha. E ele não é baiano não?

É baiano.
Essa declaração não merece nem...é uma coisa inocente, completamente sem base em coisa nenhuma. Nenhuma população de nenhum canto do Brasil pode ser avaliado como (tendo) baixo QI. O que acontece é que em alguns momentos alguns grupos são particularamente influencidados pela filosofia do niilismo americano que tá na televisão e aí aparecem esses fenômenos. Mas aí pode aparecer na Bahia, em qualquer lugar; isso é bobagem.

Ele também disse que o baiano só toca o berimbau porque tem um corda só; se tivesse mais de uma, não conseguiria tocar. O senhor ao que parece toca outros instrumentos além do berimbau, não?
(risos) É...naturalmente. Não é só isso. Primeiro que o berimbau que compõe uma....tá gravando?

Sim, estamos.
Deixa eu dizer editado pra você botar aí: o berimbau faz parte de uma cultura que enriquece a Bahia e o fato dele ter uma corda só é um dado complicador que fala bem dos que tocam esse instrumento ao invés de falar mal. É uma exigência maior de sensibilidade para tocar o berimbau, é uma exigência maior de sensibilidade e adequação. Precisa compreender qual é a função dele dentro da mítica da capoeira porque o berimbau tem uma microtonalidade especialmente difícil para pessoas educadas na escala diatônica ocidental. O berimbau é uma coisa muito mais complexa do que essa coisa de uma corda só. A riqueza timbrística dele e a funcionalidade dele...o berimbau não foi feito para tocar música ocidental, foi feito para outra concepção de mundo. É isso que se precisa compreender.

Há um certo preconceito ao dizer isso, que o baiano toca o berimbau só porque tem uma corda?
Não, tem uma falta de entendimento da delicadeza da matéria (risos).

E quanto à questão do QI baixo?
Pô, aí é o que eu disse: nesse Brasil, principalmente a Bahia, que é um mundo diferente do Brasil, uma cultura diferente e muito rica, nem lá e em nenhum canto do Brasil se pode acusar grupo social de QI baixo. Isso é uma espetacularidade na declaração, é uma estratégia dele. Talvez funcione até para os termos em que ele tá interessado. Mas isso absolutamente não acontece. Esse problema de QI baixo começou a acontecer na Europa, com aquele casamento de primos durante séculos e séculos. E a Bahia é uma terra muito plural do ponto de vista da miscigenação, onde a espécie humana - muito pelo contrário - está muito sensibilizada para compreensões mais metafísicas da vida. Agora, realmente com essa massificação do niilismo americano que bota na televisão uma cultura de massas absolutamente imoral, de repente um pequeno grupo na Bahia, ou em São Paulo, ou no Rio Grande do Sul - não, tire o Rio Grande do Sul disso - ou no Rio de Janeiro podem estar muito dominados pela cultura, muito....

Suscetíveis a isso, vamos dizer.
Isso, suscetíveis a isso. Perfeito, você completou bem. (Suscetíveis) a essa cultura do crime que Hollywood, que o desespero da vida americana está divulgando pelo mundo.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Faz um tempinho aí, numa crônica intitulada Isso é Arte?, questionei a validade de certas extravagâncias dentro do que se convencionou chamar de arte moderna. Hoje parece que não basta pintar um bigodinho na Monalisa ou exibir um penico numa galeria, diabruras que talvez fizessem sentido no tempo de Duchamp; é preciso mais, muito mais. Há quem jogue lixo num canto da sala e chame isso de instalação; há quem pendure uma toalha suja numa parede e a considere um auto-retrato; e há quem faça cocô dentro de uma latinha e o venda como a quintessência da subversão artística.

Interessante é que não faltam críticos e teóricos bobocas para justificar tamanha "bobiça" numa exposição ou bienal. Nessa eu não embarco, de jeito nenhum. Podem até me chamar de burro, caipira e ignorante, não vou bancar o intelectual blablablá e dizer que esse tipo de coisa é arte porque, meus amigos, não é, trata-se apenas da manifestação - e agora sim uma expressão bem blablablá - do "niilismo pseudocriativo" que tomou conta da nossa época.

Pois bem. Pensava eu que já tinha ouvido o suficiente no que diz respeito ao engodo que se tornou a arte moderna quando, através de um artigo de poeta Ferreira Gullar, fico sabendo de algo ainda mais cabeludo. Em 2007, um "artista" costarriquenho chamado Guilhermo Habacuc Vargas, com o fim de criar uma "instalação perecível", amarrou um cachorro na parede de uma galeria e ali deixou o bicho definhando até morrer de fome. Isso agora é arte, meu Deus do céu? Onde estava a sociedade protetora dos animais? E o público, pô? Ninguém se sensibilizou com o padecimento do animal? Vale tudo em nome da liberdade criativa?

Parece que vale. Para o espanto de Gullar, a Bienal de Arte Centro-Americana de Honduras acaba de convidar o "artista" para lá torturar e assassinar outro cachorro e concorrer a um dos prêmios do certame. Se minha avó dizia "morro e não vejo tudo", de minha parte só posso dizer "vejo tudo e não morro", pois abaixo é que vem o pior.

Com uma postura mais radical que a do costarriquenho, o alemão Gregor Schneider enunciou que está à procura de um doente terminal que aceite participar de uma instalação - mais uma! - na qual teria a oportunidade de morrer em público. Sim, você leu isso mesmo: em vez de um cachorro, é um ser humano que vai para a berlinda. É arte esse showzinho mixo de auto-promoção? Em vez de concluir com palavras de espanto, limito-me a admitir que sou burro, caipira e ignorante.

Maicon Tenfen.

Fazendo uma gancho no dia 19 de outubro de 2007, postei aqui no PIRULA DA CULTURA comentando sobre esse "artista". Essa forma bizarra de demonstrar a arte..

"Isso é arte?
Demonstrar o máximo de crueldade de um ser humano contra outra vida mesmo que está vida seja de um animal dito irracional?

http://www.marcaacme.com/blogs/analog/index.php/2007/08/22/5_piezas_de_habacuc

Pra quem não está acompanhando as exposições por ai a fora...
Este "artista" Costa Riquenho chamado Guillermo Habacuc Vargas, expôs um cão de rua faminto numa galeria de arte. O cão estava preso por uma corda curta próximo de um letreiro feito por ração de cachorro. Ninguém alimentou ou deu água ao cão que morreu durante a exposição. Guillermo Habacuc Vargas foi o "artista" escolhido para representar o seu país na "Bienal Centroamericana Honduras 2008".
-->> Existe uma petição na internet onde é pedido que ele não receba este prémio.
Quem quiser assinar a petição deve acessar:
www.petitiononline.com/13031953/petition.html

Peço aos amigos que por aqui passam POR FAVOR assinar essa petição pois é um absurdo a arte virar meramente um show de crueldade.

Está vendo comentários sobre a exposição e um deles falava algo +- assim:
" A arte tem como fundamento tocar o ser humano, criar emoções adversas no homem..."

Você acredita que por essa nova "arte" seres possam ser mortos para chegar a tal ponto?"



Inté!

terça-feira, 29 de abril de 2008




Arte: Eli Heil - Brincando de rodas e rodinhas.
http://www.eliheil.org.br/

Procurei e procurei um (a) artista que retratasse o som que estou ouvindo e a achei!!!

Grupo Uakti.
Albúm: Tudo e todas as coisas.

www.uakti.com.br


Muito bom os caras!!


Inté!

sexta-feira, 25 de abril de 2008




Augusto dos Anjos, muito bom!!!!


Monólogo de uma sombra

“Sou uma Sombra! Venho de outras eras,
Do cosmopolitismo das moneras...
Pólipo de recônditas reentrâncias,
Larva de caos telúrico, procedo
Da escuridão do cósmico segredo,
Da substância de todas as substâncias!

A simbiose das coisas me equilibra.
Em minha ignota mônada, ampla, vibra
A alma dos movimentos rotatórios...
E é de mim que decorrem, simultâneas,
A saúde das forças subterrâneas
E a morbidez dos seres ilusórios!

Pairando acima dos mundanos tetos,
Não conheço o acidente da Senectus
-- Esta universitária sanguessuga
Que produz, sem dispêndio algum de vírus,
O amarelecimento do papirus
E a miséria anatômica da ruga!

Na existência social, possuo uma arma
-- O metafisicismo de Abidarma --
E trago, sem bramânicas tesouras,
Como um dorso de azêmola passiva,
A solidariedade subjetiva
De todas as espécies sofredoras.

Como um pouco de saliva quotidiana
Mostro meu nojo à Natureza Humana.
A podridão me serve de Evangelho...
Amo o esterco, os resíduos ruins dos quiosques
E o animal inferior que urra nos bosques
É com certeza meu irmão mais velho!

Tal qual quem para o próprio túmulo olha,
Amarguradamente se me antolha,
À luz do americano plenilúnio,
Na alma crepuscular de minha raça
Como uma vocação para a Desgraça
E um tropismo ancestral para o Infortúnio.

Aí vem sujo, a coçar chagas plebéias,
Trazendo no deserto das idéias
O desespero endêmico do inferno,
Com a cara hirta, tatuada de fuligens
Esse mineiro doido das origens,
Que se chama o Filósofo Moderno!

Quis compreender, quebrando estéreis normas,
A vida fenomênica das Formas,
Que, iguais a fogos passageiros, luzem.
E apenas encontrou na idéia gasta,
O horror dessa mecânica nefasta,
A que todas as coisas se reduzem!

E hão de achá-lo, amanhã, bestas agrestes,
Sobre a esteira sarcófaga das pestes
A mosrtrar, já nos últimos momentos,
Como quem se submete a uma charqueada,
Ao clarão tropical da luz danada,
O espólio dos seus dedos peçonhentos.

Tal a finalidade dos estames!
Mas ele viverá, rotos os liames
Dessa estranguladora lei que aperta
Todos os agregados perecíveis,
Nas eterizações indefiníveis
Da energia intra-atômica liberta!

Será calor, causa ubíqua de gozo,
Raio X, magnetismo misterioso,
Quimiotaxia, ondulação aérea,
Fonte de repulsões e de prazeres,
Sonoridade potencial dos seres,
Estrangulada dentro da matéria!

E o que ele foi: clavículas, abdômen,
O coração, a boca, em síntese, o Homem,
-- Engrenagem de vísceras vulgares --
Os dedos carregados de peçonha,
Tudo coube na lógica medonha
Dos apodrecimentos musculares.

A desarrumação dos intestinos
Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos
Dentro daquela massa que o húmus come,
Numa glutoneria hedionda, brincam,
Como as cadelas que as dentuças trincam
No espasmo fisiológico da fome.

É uma trágica festa emocionante!
A bacteriologia inventariante
Toma conta do corpo que apodrece...
E até os membros da família engulham,
Vendo as larvas malignas que se embrulham
No cadáver malsão, fazendo um s.

E foi então para isto que esse doudo
Estragou o vibrátil plasma todo,
À guisa de um faquir, pelos cenóbios?!...
Num suicídio graduado, consumir-se,
E após tantas vigílias, reduzir-se
À herança miserável dos micróbios!

Estoutro agora é o sátiro peralta
Que o sensualismo sodomita exalta,
Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo...
Como que, em suas clélulas vilíssimas,
Há estratificações requintadíssimas
De uma animalidade sem castigo.

Brancas bacantes bêbadas o beijam.
Suas artérias hírcicas latejam,
Sentindo o odor das carnações abstêmias,
E à noite, vai gozar, ébrio de vício,
No sombrio bazer domeretrício,
O cuspo afrodisíaco das fêmeas.

No horror de sua anômala nevrose,
Toda a sensualidade da simbiose,
Uivando, à noite, em lúbricos arroubos,
Como no babilônico sansara,
Lembra a fome incoercível que escancara
A mucosa carnívora dos lobos.

Sôfrego, o monstro as vítimas aguarda.
Negra paixão congênita, bastarda,
Do seu zooplasma ofídico resulta...
E explode, igual à luz que o ar acomete,
Com a veemência mavórtica do aríete
E os arremessos de uma catapulta.

Mas muitas vezes, quando a noite avança,
Hirto, observa através a tênue trança
Dos filamentos fluídicos de um halo
A destra descarnada de um duende,
Que tateando nas tênebras, se estende
Dentro da noite má, para agarrá-lo!

Cresce-lhe a intracefálica tortura,
E de su’alma na caverna escura,
Fazendo ultra-epiléticos esforços,
Acorda, com os candeeiros apagados,
Numa coreografia de danados,
A família alarmada dos remorsos.

É o despertar de um povo subterrâneo!
É a fauna cavernícola do crânio
-- Macbeths da patológica vigília,
Mostrando, em rembrandtescas telas várias,
As incestuosidades sangüinárias
Que ele tem praticado na família.

As alucinações tácteis pululam.
Sente que megatérios o estrangulam...
A asa negra das moscas o horroriza;
E autopsiando a amaríssima existência
Encontra um cancro assíduo na consciência
E três manchas de sangue na camisa!

Míngua-se o combustível da lanterna
E a consciência do sátiro se inferna,
Reconhecendo, bêbedo de sono,
Na própria ânsia dionísica do gozo,
Essa necessidade de horroroso,
Que é talvez propriedade do carbono!

Ah! Dentro de toda a alma existe a prova
De que a dor como um dartro se renova,
Quando o prazer barbaramente a ataca...
Assim também, observa a ciência crua,
Dentro da elipse ignívoma da lua
A realidade de uma esfera opaca.
Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa,
Abranda as rochas rígidas, torna água
Todo o fogo telúrico profundo
E reduz, sem que, entanto, a desintegre,
À condição de uma planície alegre,
A aspereza orográfica do mundo!

Provo desta maneira ao mundo odiento
Pelas grandes razões do sentimento,
Sem os métodos da abstrusa ciência fria
E os trovões gritadores da dialética,
Que a mais alta expressãoda dor estética
Consiste essencialmente na alegria.

Continua o martírio das criaturas:
-- O homicídio nas vielas mais escuras,
-- O ferido que a hostil gleba atra escarva,
-- O último solilóquio dos suicidas --
E eu sinto a dor de todas essas vidas
Em minha vida anônima de larva!”

Disse isto a Sombra. E, ouvindo estes vocábulos,
Da luz da lua aos pálidos venábulos,
Na ânsa de um nervosíssimo entusiasmo,
Julgava ouvir monótonas corujas,
Executando, entre daveiras sujas,
A orquestra arrepiadora do sarcasmo!

Era a elegia panteísta do Universo,
Na produção do sangue humano imenso,
Prostituído talvez, em suas bases...
Era a canção da Natureza exausta,
Chorando e rindo na ironia infausta
Da incoerência infernal daquelas frases.

E o turbilhão de tais fonemas acres
Trovejando grandíloquos massacres,
Há-de ferir-me as auditivas portas,
até que minha efêmera cabeça,
Reverta à quietação datrava espessa
E à palidez das fotosferas mortas!



Sexta - feira!!!

Latão de Lixo - Raulzito.

____

Quase me esquecendo...

O obra acima é do Nestor um artista aqui de Blumenau. Muito bom seu trabalho.

Confira em:

http://www.flickr.com/photos/nestorjr

http://www.fotolog.com/econtemporaneo