quarta-feira, 17 de setembro de 2008




Aos sedentos por novas idéias... E novas visões... Recomendo a leitura, um tanto extensa mais muito boa!

Pretendo postar nos próximos dias, um pouco de cada "religião" e suas visões (as não conservadoras).

É um bocado irônico que o personagem mais influente da História também seja um dos mais misteriosos. Jesus de Nazaré não tem data de nascimento ou morte registrada com segurança (embora seja possível estimá-las com margem de erro de dois ou três anos). Não deixou nada escrito de próprio punho (há até quem argumente que ele provavelmente era analfabeto). Não restou um único artefato do qual se possa dizer com certeza que pertenceu a ele. Os relatos de seus seguidores, escritos entre duas e seis décadas após a morte na cruz, falam com riqueza de detalhes de um período curtíssimo de sua vida adulta, elencando seus atos e ensinamentos, mas nos deixam no escuro sobre a maior parte de sua infância e adolescência, suas angústias pessoais e seu relacionamento com amigos e familiares.

A situação pode soar desesperadora ao extremo para um historiador que, sem recorrer à fé cristã, queira reconstruir a vida e a mensagem desse judeu singular. Mas a situação é menos complicada do que parece. Por um lado, é preciso reconhecer que os Evangelhos, principais narrativas sobre Jesus na Bíblia cristã, não são livros históricos no sentido moderno do termo. "Os Evangelhos são uma combinação de elementos históricos e interpretações feitas posteriormente no âmbito das comunidades cristãs", afirma o padre Léo Zeno Konzen, coordenador do curso de teologia da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (RS).

Trocando em miúdos: os evangelistas (conhecidos entre nós pelos títulos de Mateus, Marcos, Lucas e João, que não devem ter sido os autores dos textos) estavam tão preocupados em relatar o que tinha acontecido com Jesus e os apóstolos 50 anos antes quanto em tornar esses fatos relevantes para seu público, formado por cristãos nascidos depois que seu Mestre morrera na cruz. A boa notícia é que a leitura crítica dessas narrativas é capaz de resgatar grande parte da vida terrena de Jesus.

O retrato que emerge desse esforço é, em certos aspectos, familiar para qualquer cristão, ao mesmo tempo em que humaniza o Nazareno. O chamado Jesus histórico é uma figura humilde, que coloca sua mensagem - o anúncio da chegada do Reino de Deus - acima de qualquer preocupação com sua própria importância. Não se comporta como uma entidade superpoderosa ou onisciente. E coloca em primeiro lugar a história e o destino do povo de Israel, ao qual pertence. É um Jesus que pode ajudar os cristãos a repensarem a origem de sua própria fé - mas dificilmente é uma ameaça a ela, a menos que se acredite que todo versículo dos Evangelhos é verdade literal, como se fosse um filme do que aconteceu no ano 30 d.C.

Fraudes modernas
Volta e meia ressurge a esperança de que os Evangelhos não serão mais a principal (ou única) fonte sobre a vida de Jesus. Há quem coloque todas as suas fichas em achados arqueológicos, como inscrições, túmulos e textos antigos. Dois exemplos recentes não tiveram um resultado dos mais gloriosos.

Em 2002, foi a vez do chamado Ossuário de Tiago, uma caixa de pedra feita originalmente para conter o esqueleto de um homem que morreu em Jerusalém no século 1. No artefato havia uma inscrição em aramaico (língua aparentada ao hebraico que era a mais falada no tempo de Cristo), com os dizeres: "Tiago, filho de José, irmão de Jesus".

O ossuário, afirmavam alguns especialistas, teria pertencido a Tiago, irmão ou primo de Jesus que liderou a igreja cristã de Jerusalém até o ano 62 d.C. Análises mais detalhadas feitas posteriormente comprovaram que o pedaço crucial da inscrição ("irmão de Jesus") foi adicionado por um falsificador do século 21.

Um bafafá parecido cercou, em 2006, novas análises de outros ossuários de Jerusalém, originalmente desenterrados nos anos 1980. Num mesmo jazigo familiar estavam enterrados "Jesus, filho de José", Maria (a mãe dele?), Mariamne (supostamente, Maria Madalena) e outras pessoas cujos nomes lembram os de personagens do Novo Testamento. Um documentário produzido por James Cameron (ele mesmo, o criador de "Titanic") defendeu que os ossuários eram a prova de que Jesus tinha se casado com Maria Madalena. Os defensores da tese argumentam que seria muito improvável a ocorrência conjunta desses nomes na Jerusalém do século 1 d.C. sem que houvesse uma ligação com Jesus de Nazaré. Nenhum estudioso sério do Jesus histórico, contudo, dispôs-se a comprar a idéia - calcula-se que, só em Jerusalém, teriam vivido mais de mil "Jesus, filhos de Josés" nessa época.

Esses fracassos talvez tenham uma explicação muito simples: a pessoa de Jesus pode ser "invisível" para a arqueologia. "E não só ele como quase toda a primeira e a segunda geração de cristãos. São pessoas periféricas, gente muito simples, de origem rural", afirma André Leonardo Chevitarese, historiador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Romanos e judeus de classe alta construíam palácios e tinham selos (carimbos) pessoais feitos com metal ou pedra preciosos; carpinteiros e pescadores da Galiléia (a terra natal de Jesus, no norte de Israel), por outro lado, podiam passar a vida inteira usando apenas materiais perecíveis. Chevitarese, aliás, é cético até em relação à idéia de um enterro formal para Jesus.

"Em todo o mundo romano, o costume era abandonar o cadáver na cruz, para ser comido por abutres ou cães", lembra o historiador da UFRJ. Ele também diz ser suspeita a figura de José de Arimatéia, judeu rico e simpatizante de Jesus que teria obtido seu corpo e organizado o sepultamento, segundo os Evangelhos. "Camponeses como os seguidores de Jesus não teriam como se dirigir a Pilatos para exigir o corpo. Assim, os evangelistas têm o problema de explicar o sepultamento de Jesus e usam a figura de Arimatéia, que praticamente cai de pára-quedas na narrativa", diz. Por outro lado, há pelo menos um registro de crucificado judeu que teve um sepultamento digno - Yehohanan (João), filho de Hagakol, cujo ossuário foi descoberto por arqueólogos israelenses em 1968. O osso do calcanhar de Yehohanan ainda continha o cravo usado para pregá-lo na cruz.

EXISTÊNCIA COMPROVADA?
Ateus ou religiosos, os estudiosos concordam: a teoria de conspiração de que Jesus não teria passado pela Terra é uma tremenda bobagem
Viciados em teorias da conspiração adoram a idéia: Jesus nunca teria existido. As histórias sobre sua vida, morte e ressurreição seriam mera colagem de mitos egípcios e babilônicos, com pitadas do Antigo Testamento para dar um saborzinho judaico. Na prática, Cristo não seria mais real do que Osíris ou Baal, deuses mitológicos que também morreram e ressuscitaram. No entanto, para a esmagadora maioria dos estudiosos, sejam eles homens de fé ou ateus, a tese não passa de bobagem. A figura de Jesus pode até ter "atraído" elementos de mitos antigos para sua história, mas temos uma quantidade razoável de informações historicamente confiáveis, englobando pistas de fontes cristãs, judaicas e pagãs.
Começamos, no Novo Testamento, com as cartas de São Paulo, escritas entre 20 e 30 anos após a crucificação do pregador de Nazaré. Cerca de 40 anos depois da morte de Jesus, surge o Evangelho de Marcos, o mais antigo da Bíblia; antes que o século 1 terminasse, os demais Evangelhos alcançaram a forma que conhecemos hoje. A distância temporal, em todos esses casos, é mais ou menos a mesma que separava o historiador Heródoto da época da guerra entre gregos e persas, que aconteceu entre 490 a.C. e 480 a.C. - e ninguém sai por aí dizendo que Heródoto inventou Leônidas, o rei casca-grossa de Esparta.

Outra fonte crucial é Flávio Josefo, autor de "Antiguidades Judaicas", também do século 1. O texto sofreu interferências de copistas cristãos, mas é possível determinar sua forma original, bastante neutra: Jesus seria um "mestre", responsável por "feitos extraordinários", crucificado a mando de Pilatos, cujos seguidores ainda existiam, apesar disso. Duas décadas depois, o historiador romano Tácito conta a mesma história básica, precisando que Jesus tinha morrido na época de Pilatos e do imperador Tibério (duas referências que batem com o Novo Testamento). Esses dados mostram duas coisas: a historicidade de Jesus e também sua relativa desimportância diante das autoridades romanas e judaicas, como um profeta marginal num canto remoto e pobre do Império Romano

Homem invisível
Fora algum tremendo golpe de sorte, o máximo que a arqueologia pode fazer é iluminar a vida cotidiana no tempo de Jesus (indicando em que tipo de casa ele vivia ou que modelo de taça ele teria usado para beber vinho com seus discípulos) ou como era a religião judaica naquela época. Esse provavelmente é o caso de um misterioso texto do século 1 a.C., pintado numa pedra e analisado por Israel Knohl, da Universidade Hebraica de Jerusalém. Em julho passado, Knohl apresentou sua interpretação do texto (o qual não está inteiramente legível e, por isso, tem de ser reconstruído hipoteticamente): ele mencionaria a morte e ressurreição de um Messias décadas antes do nascimento de Jesus. Ainda que a interpretação esteja correta, é difícil ver como ela mudaria nossa compreensão sobre as origens do cristianismo. Afinal, um dos grandes argumentos dos seguidores de Jesus é justamente que seu retorno dos mortos já tinha sido previsto nas profecias judaicas.

Se a invisibilidade arqueológica não ajuda, a imaginação e as preocupações modernas também atrapalham um bocado. No esforço de tornar o Jesus histórico relevante para a nossa época, ou como forma de polemizar com as atuais religiões cristãs, pesquisadores como o historiador irlandês John Dominic Crossan defendem que Cristo não se preocupava com a vida eterna ou o Juízo Final, mas pregava uma ética totalmente centrada no aqui e no agora, influenciada pela cultura grega. Outros enfatizam seu lado de revolucionário político, ou mesmo o retratam como uma espécie de mago itinerante, cujos milagres não passavam de truques. Na avaliação de Chevitarese, isso equivaleria a esvaziar Jesus. "Não se pode tirá-lo do seu contexto judaico nem eliminar seu lado apocalíptico e escatológico [o de um profeta que espera o final dos tempos e a consumação da história humana]", diz o historiador da UFRJ. Isso não quer dizer, por outro lado, que a pregação de Jesus fosse completamente isenta de idéias sobre a sociedade e a política.

"A própria escatologia judaica também tem um substrato político", afirma Luiz Felipe Ribeiro, professor da pós-gradua-ção em história do cristianismo antigo da Universidade de Brasília (UnB). Ele cita um exemplo cristão, o Livro do Apocalipse, que pode ser lido tanto como uma previsão do fim do mundo quanto como um ataque contra a opressão romana que afetava os cristãos.

Reinado de Deus
Para John P. Meier, professor da Universidade Notre Dame (EUA) e autor da monumental série de livros "Um Judeu Marginal" (ainda não concluída) sobre o Jesus histórico, o pregador de Nazaré resume e mistura o espiritual, o social e o político na frase-chave de seu anúncio profético: o "Reino de Deus". Essa é a tradução mais comum em português do grego "basilêia tou Theou", cujo sentido provavelmente está mais para "o Reinado de Deus" - a idéia de que Deus estava prestes a intervir dramaticamente no mundo, resgatando seu povo de Israel, instaurando seu domínio de justiça e paz e incluindo até os povos pagãos nesse Universo transformado.
"Isso explica por que Jesus parece relativamente despreocupado em relação a problemas sociais e políticos. Ele não estava pregando a reforma do mundo; estava pregando o fim do mundo", escreve Meier. No entanto, em vez de se concentrar nos tormentos que aguardariam os pecadores que não se arrependessem, o profeta da Galiléia ressaltava que o Reinado de Deus era um poder misericordioso, aberto a todos. Não é à toa que algumas autoridades judaicas ou o grupo dos fariseus (algo como "separados", em hebraico) ficavam escandalizados com o lado festivo da vida de Jesus e seus discípulos. Afinal, eles não hesitavam em comer e beber com cobradores de impostos, prostitutas e outros "pecadores notórios" da sociedade israelita, como sinal da proximidade e da inclusão do Reino.

"Proximidade", aliás, talvez não seja a palavra exata: ao mesmo tempo em que Jesus via o Reinado de Deus como uma promessa a se realizar no futuro próximo, também insinuava que esse reino já estava presente no ministério do próprio Cristo, diz Meier. "As curas e os exorcismos realizados por Jesus não seriam, portanto, meros atos de bondade e compaixão: estariam mais para demonstrações dramáticas de que o Reino de Deus já estava chegando a Israel", afirma o pesquisador. Não dá para forçar a mão de Deus, diz Jesus: seu Reinado é um ato espontâneo de misericórdia, voltado não para quem o merece, mas para quem mais precisa dele.

Barrados no baile
Mais importante ainda, Jesus se apresenta como o mediador para os que querem participar do Reinado de Deus: rejeitar sua mensagem equivale a rejeitar a ordem divina. E, como registram os Evangelhos, a proclamação é voltada exclusiva ou principalmente a judeus. Não é à toa que ele escolhe os Doze Apóstolos (provavelmente simbolizando as doze tribos de Israel, espalhadas pelo mundo, que Deus deveria reunir no fim dos tempos) e ordena que eles se dirijam apenas às "ovelhas perdidas da casa de Israel". Para Jesus, a imagem desse Reino de Deus consumado é a de um banquete - e, paradoxalmente, ele chega a afirmar que alguns de seus compatriotas judeus, os que não o aceitam, poderão ser os barrados no baile, enquanto gente "do Oriente e do Ocidente" - os pagãos - acabam sendo incluídos.

É possível extrair essas linhas gerais da missão de Jesus do material contido no Novo Testamento, mas é bem mais complicado afirmar se, durante sua vida terrena, Cristo considerava ser Deus encarnado, como defende o dogma cristão, ou mesmo se ele tinha consciência plena de que sua morte na cruz serviria para redimir a humanidade.

O interessante, afirma Chevitarese, é que os textos do Novo Testamento parecem mostrar a convivência de várias visões sobre como e quando os cristãos consideravam que Jesus teria assumido seu status de Cristo, ou seja, de "ungido" (escolhido) e filho de Deus. "Para Paulo [autor dos textos provavelmente mais antigos, datados por volta do ano 50], Jesus é o Cristo porque ressuscitou. O Evangelho de Marcos traz esse papel já para o batismo de Jesus feito por João Batista. Os Evangelhos de Mateus e Lucas recuam isso para o nascimento dele, enquanto João vê Cristo como preexistente ao próprio mundo."

Como judeu, seria impensável para Jesus se colocar publicamente como igual a Deus, afirma Luiz Felipe Ribeiro. "Agora, isso não quer dizer que não houvesse uma autocompreensão de Jesus na qual ele se via como mais do que humano, uma autocompreensão messiânica, digamos." Seria essa uma possível explicação para o misterioso título "Filho do Homem", aparentemente empregado por Jesus para designar a si mesmo. Esse personagem aparece em vários escritos apocalípticos judaicos, muitos dos quais surgidos pouco antes do nascimento de Cristo.

Constrangimento
Essas incongruências só são conhecidas porque os Evangelhos preservam uma trilha de pistas sobre o lado humano de Jesus. Tais pistas fortalecem o chamado critério do constrangimento. A idéia é que os evangelistas não inventariam passagens capazes de lançar dúvidas sobre o poder ou onisciência de Jesus. O caso clássico é o batismo de Cristo por João Batista no rio Jordão, afirma Emilio Voigt, doutor em Novo Testamento e professor da Escola Superior de Teologia de São Leopoldo (RS). "Se o batismo de João é para o arrependimento [dos pecados], por que Jesus precisaria ser batizado? Como Jesus, o Messias, poderia ser batizado por alguém inferior a ele?", diz o pesquisador. Segundo Voigt, a tradição cristã resolve isso por meio do "testemunho" de João - afirmações do profeta de que ele teria vindo apenas para proclamar a chegada de Jesus e de que, na verdade, não seria digno de batizá-lo. Uma série de outros eventos constrangedores aparece nos Evangelhos: os parentes de Jesus e os moradores de Nazaré o rejeitam como profeta, ele diz que "somente o Pai" conhece a hora da chegada do Reino, teme a aproximação da morte e, pregado na cruz, pergunta por que Deus o teria abandonado.

Homem bruto
Levando tudo isso em consideração, a fé cristã pode sair abalada ao confrontar o Jesus histórico? Os especialistas apostam que esse risco é menor do que parece. "A pesquisa histórica ajuda a compreender a atividade de Jesus e a contextualizar a fé. Pode ameaçar alguns dogmas eclesiásticos, mas não a fé propriamente dita", afirma Voigt, que também é pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IELCB).

"Creio que o processo de formação das pessoas de fé cristã deve ajudar a perceber a riqueza que se encontra no processo de interpretar os acontecimentos. Não podemos ler a Bíblia ao pé da letra. Como pessoas de fé, nossos antepassados vivenciaram processos muito criativos de leitura dos acontecimentos, atribuindo-lhes significados que, à primeira vista, não eram perceptíveis nem imagináveis. A Bíblia toda foi construída assim", pondera o padre Léo Konzen.

"Apesar de ser a personificação do Divino, Jesus era um homem bruto, pobre, tão comum que dependia de muita oração e da ação do Espírito Santo para realizar feitos. Seria muito fácil se Ele morresse na cruz tendo a certeza de que era eterno. Mas era homem e não tinha uma memória divina", diz René Vasconcelos, autor do blog Papo de Teólogo e membro da denominação evangélica Assembléia de Deus.

Essa, aliás, é uma das pedras fundamentais da fé de quase todas as igrejas cristãs: Jesus é verdadeiro Deus, mas também é verdadeiro homem. A primeira parte da frase ainda não pode ser comprovada ou refutada pela pesquisa histórica, mas a segunda também é capaz de tornar Jesus relevante para crentes - e até para agnósticos ou ateus - durante muito tempo ainda.

O homem, o mito
Décadas de investigação revelam detalhes surpreendentes sobre a história de Cristo, como seu verdadeiro local de nascimento, sua relação com Maria Madalena e a veracidade de seus milagres

1>>>Nascimento: Cristo nasceu antes de Cristo. Os próprios Evangelhos indicam uma vinda ao mundo no fim do reinado de Heródes, o Grande, por volta do ano 5 a.C. Nosso calendário está, portanto, alguns anos atrasados, por um erro de cálculo medieval

2>>>Pais: há consenso de que são Maria e José, o carpinteiro (e/ou construtor: a palavra grega comporta os dois sentidos). Jesus teria herdado a profissão do pai

3>>>Terra natal: Lucas e Mateus não se entendem sobre como a família de Cristo teria chegado a Nazaré, na Galiléia (norte de Israel). É mais provável que a história do nascimento em Belém tenha sido criada mais tarde, para associar Jesus às profecias sobre o Messias

4>>>Família: o dogma católico sobre a eterna virgindade de Maria levou teólogos a interpretar os "irmãos" de Jesus citados nos Evangelhos como seus primos, mas é mais provável, pelo sentido do texto grego, que Maria e José tenham mesmo tido outros filhos

5>>>Estado civil: solteiro e sem filhos. Essa é a situação marital mais provável de Jesus, a julgar pelas muitas referências à sua família, mas nenhuma a mulher e filhos. Tampouco há provas confiáveis de que Maria Madalena fosse algo mais que sua discípula

6>>>Batismo: Jesus certamente foi batizado por João Batista no rio Jordão: os evangelistas jamais criariam uma história embaraçosa para seu mestre, uma vez que o batismo de João servia para a remissão dos pecados - algo supostamente supérfluo para o Filho de Deus

7>>>Mensagem: o centro da pregação de Jesus era o "Reino de Deus" (para ser mais preciso, o "Reinado de Deus"): a idéia de que Deus estava prestes a iniciar uma nova fase na história do povo de Israel e da humanidade e de que o próprio Jesus era o principal arauto

8>>>Milagres: até fontes não-cristãs falam de Cristo como "responsável por atos extraordinários", entre os quais a cura de doentes. Para Jesus, tratava-se de mais um sinal da proximidade do Reinado de Deus

9>>>Exorcismos: é difícil separar as curas operadas por Jesus dos exorcismos que praticava. Nem seus opositores judeus duvidavam desses atos. Para Cristo, sua vitória contra forças demoníacas mostrava que Deus estava agindo através dele

10>>>Seguidores: Jesus aparentemente chamava indivíduos específicos para segui-lo, eventualmente exigindo que eles abandonassem seu emprego, sua cidade e até sua família para acompanhá-lo. Doze desses escolhidos formaram um círculo interno de seguidores, provavelmente representando as doze tribos de Israel, que seriam reconstituídas por Deus

11>>>Traição: um dos doze apóstolos, Judas Iscariotes (o significado do sobrenome é nebuloso; podia se referir a "homem de Keriot", cidade da Judéia), teria entregado Jesus. Os evangelistas provavelmente não inventariam isso: se Jesus fosse onisciente, por que escolheria um apóstolo que iria traí-lo?

12>>>Crucificação: diversas fontes não-cristãs concordam com os Evangelhos. Cristo morreu crucificado a mando de Pôncio Pilatos, que governou a Judéia do ano 26 ao 36. A data mais provável para a execução de Jesus é o ano 30


EXPRESSO NÃO CONCORDAR COM A PARTE A SEGUIR:


Apócrifos: muito barulho por nada
Para especialistas, esses escritos perdem importância quando se constata que eles tiveram como base os Evangelhos canônicos e seguiram o gnosticismo
O menino Jesus usa seus superpoderes para matar um amiguinho e dar vida a passarinhos de barro; uma parteira anuncia que, após o parto de Cristo, a virgindade de Maria foi milagrosamente restaurada; Judas é um bom sujeito, que só traiu seu mestre quando o próprio pediu; Maria Madalena e Jesus vivem aos beijos, e a ex-endemoninhada é a discípula favorita do Messias. Bem-vindo ao maravilhoso mundo dos Evangelhos apócrifos, textos sobre a vida de Jesus que não foram incluídos no cânon, o conjunto de livros oficialmente aprovados pelo cristianismo.

Há pesquisadores que vasculham esses livros, muitos dos quais em estado fragmentário, em busca de informações valiosas que não teriam sido preservadas (ou teriam sido deliberadamente varridas para debaixo do tapete) pelos evangelistas oficiais. O esforço vale a pena? O mais provável é que não. A opinião é de John P. Meier, autor da aclamada série de livros "Um Judeu Marginal". O argumento de Meier é simples: é praticamente impossível demonstrar que os evangelhos apócrifos mais populares entre os historiadores, como o de Tomás e o de Pedro, não tenham, na verdade, usado como base os Evagelhos canônicos, os bons e velhos Mateus, Marcos, Lucas e João.

Estruturas literárias básicas, como a ordem dos ditos de Jesus, parecem seguir de perto os textos canônicos. Além disso, a datação dos apócrifos aponta para uma composição décadas ou até séculos depois dos Evangelhos oficiais. E há alguns detalhes teológicos suspeitos nas narrativas apócrifas: muitos deles seguem o chamado gnosticismo, uma vertente esotérica do cristianismo primitivo que considerava o mundo material uma esfera corrompida e naturalmente ruim da existência e pregava o acesso a um conhecimento secreto para se libertar dele. A importância do apóstolo Tomé ou de Maria Madalena nos textos gnósticos provavelmente não tem a ver com o papel histórico desses personagens, mas com o uso deles como contraponto aos sucessores de apóstolos como Pedro e Paulo, principais líderes das comunidades cristãs após a morte de Jesus.
"...Amanita matutina que transparente curtina ao meu redor..."

terça-feira, 16 de setembro de 2008




As bolsas de valores continuam em queda no mundo todo. A turbulência no mercado financeiro se acentuou na segunda-feira, 15, após o pedido de concordata do banco norte-americano de investimento Lehman Brothers. No Brasil, a Bovespa caiu 7,59%; a bolsa de Nova Iorque teve maior baixa desde 11 de setembro de 2001, recuando 4,42%.

A situação, no entanto, não deve afetar o desempenho econômico do país. Para a economista e professora da Universidade de Campinas (Unicamp) Maria da Conceição Tavares, o PIB brasileiro não será influenciado pela crise na economia mundial.

- Nosso sistema bancário não está em crise. O deles (dos EUA) é que está. Nós não temos nada a ver com isso - afirma.

Ex-consultora do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), Maria da Conceição diz que a turbulência afeta, por ora, apenas a bolsa de valores. Ela pondera:

- A menos, é claro, que haja uma recessão cavalar que ainda não está à vista.

Em entrevista a Terra Magazine, a economista comenta ainda a intervenção do governo norte-americano para salvar da falência, com US$ 200 bilhões em dinheiro público, dos bancos Freddie Mac e Fannie Mae, gigantes do setor imobiliário.

- Isso é que é o liberalismo, o resto é conversa (risos).

Leia a seguir a entrevista com Maria da Conceição Tavares:

Terra Magazine - Como avalia a queda das bolsas nesta segunda-feira?
Maria da Conceição Tavares - O sistema financeiro internacional está ruim. Mas só está atingindo a bolsa, não está atingindo mais nada, graças a Deus. Eu estou muito tranqüila. No caso do Brasil, só atingiu as bolsas. Mas é claro, atinge o mundo inteiro, todas as bolsas.

Isso indica uma crise do capitalismo?
Sim, é uma crise do capitalismo, sem dúvida. A economia americana foi para o buraco e eles não estão conseguindo segurar o tranco. Eles estão com o sistema financeiro em pedaços. A crise da bolsa está ligada a essa questão do Lehman Brothers, eles não conseguiram vender a desgraça do banco. Como não conseguiram, já tinha a manchete de manhã. Quando aqueles bancões americanos entram em estado falimentar, a bolsa cai. Já teve vários. É natural. Cada um que entra no vermelho, as bolsas caem.

Como a senhora vê a intervenção do governo norte-americano para salvar esses bancos com dinheiro público?
Isso é que é o liberalismo, o resto é conversa (risos). Pois é, é sempre assim. O nosso programa de intervenção à época do Fernando Henrique, o Proer, custou baratinho. Esse custou caríssimo, e o problema é que está custando muito caro - para o Tesouro americano. Eles não quiseram intervir agora no Lehman Brothers; eles já haviam intervido na Fannie Mae e no Freddie Mac e aquilo custou caríssimo. Nesse, eles deixaram rolar. E deu pânico. Quando o tesouro não intervém e não financia, dá pânico na Bolsa.

Isso deve afetar o PIB brasileiro mais à frente?
Não, por enquanto não há evidências de que vá nos afetar. Nosso sistema bancário não está em crise. O deles (dos EUA) é que está. Nós não temos nada a ver com isso; na verdade, quando elas (as bolsas estrangeiras) caem, tem muito investimento na nossa bolsa, e as bolsas são mundiais, são todas abertas. Então quando cai uma, caem todas. Mas isso só atinge a bolsa, por enquanto. A menos, é claro, que haja uma recessão cavalar que ainda não está à vista.


Fonte:
Terra Magazine.
Diego Salmen

sexta-feira, 12 de setembro de 2008



Brincando de Deus?

Sua forma é circular, com um perímetro de 27 quilômetros. Ao contrário dos demais aceleradores de partículas, a colisão será entre prótons português brasileiro ou protões português europeu, e não entre pósitrons e elétrons (como no LEP), entre prótons e antiprótons (como no Tevatron) ou entre elétrons português brasileiro ou electrões português europeu e prótons (como em HERA). O LHC irá acelerar os feixes de prótons até atingirem sete TeV (assim, a energia total de colisão entre dois prótons será de 14 TeV) e depois fá-los-á colidir em quatro pontos distintos. A luminosidade nominal instantânea é 1034 cm-2s-1, a que corresponde uma luminosidade integrada igual a 100 fb-1 por ano. Com esta energia e luminosidade espera-se observar o bóson de Higgs e assim confirmar o modelo padrão das partículas elementares.
Sua construção e entrada em funcionamento foi alvo de um filme da BBC sobre um possível fim do mundo, e tem gerado uma enorme polêmica na Europa.
Constituição do “Grande Colisor de Hádrons”

Possui um túnel a 100 metros ao menos debaixo da terra na fronteira da França com a Suíça, onde os prótons serão acelerados no anel de colisão que tem cerca de 8,6 km de diâmetro.
Amplificadores serão usados para fornecer ondas de rádio que são projetadas dentro de estruturas repercussivas conhecidas como cavidades de freqüência de rádio. Exatamente 1232 ímãs bipolares supercondutores de 35 toneladas e quinze metros de comprimento agirão sobre as transferências de energias dentro do LHC.
Os detectores de partículas ATLAS, ALICE, CMS e LHCb, que monitoram os resultados das colisões, possuem mais ou menos o tamanho de prédios de cinco andares (entre 10 e 25 metros de altura) e 12 500 toneladas. O LHC custou cerca de 3 mil milhões de euros ao contribuinte europeu.

Um dos principais objetivos do LHC é tentar explicar a origem da massa das partículas elementares e encontrar outras dimensões do espaço, entre outras coisas. Uma dessas experiências envolve a partícula bóson de Higgs. Caso a teoria dos campos de Higgs estiver correta, ela será descoberta pelo LHC. Procura-se também a existência da super simetria. Experiências que investigam a massa e a fraqueza da gravidade serão um equipamento toroidal do LHC e CMS ("Solenóide de múon compacto"). Elas irão envolver aproximadamente 2 mil físicos de 35 países e dois laboratórios autónomos — o JINR (Joint Institute for Nuclear Research) e o CERN (Conseil Européen pour la Recherche Nucléaire).
As experiências por meio do LHC devem permitir descobrir várias partículas dotadas de todas as cargas de energia e exercendo as mesmas interações que as partículas do Modelo Padrão conhecidas.

Os cientistas Walter Wagner e Luiz Sancho acreditam que este equipamento pode provocar uma catástrofe de dimensões cósmicas, como um buraco negro que acabaria por destruir a Terra[carece de fontes]. Para tanto, corre um processo num tribunal do Havaí[carece de fontes] tentando impedir a experiência, até que haja uma total comprovação de que não haja riscos. Outros acusam o CERN de não ter realizado os estudos de impacto ambiental necessários. No entanto, apesar das alegações de uma suposta criação de um buraco negro, o que de fato poderia ocorrer seria a formação de strange quarks, possibilitando uma reação em cadeia e gerando a matéria estranha; esta possui a característica de converter a matéria ordinária em matéria estranha, logo gerando uma reação em cadeia na qual todo o planeta seria transformado em uma espécie de matéria estranha.
Apesar das alegações "catastróficas", físicos teóricos de notável reputação como Stephen Hawking e Lisa Randall afirmam que tais teorias são meramente absurdas, e que as experiências foram meticulosamente estudadas e revisadas e estão sob controle[carece de fontes].
Entretanto, se um buraco negro fosse produzido dentro do LHC, ele teria um tamanho milhões de vezes menor que um grão de areia, e não viveria mais de 10-27 segundos, pois por ser um buraco negro, emitiria radiação e deixaria de existir.
Mas, supondo que mesmo assim ele continuasse estável, continuaria sendo inofensivo. Esse buraco negro teria sido criado à velocidade da luz (300 mil km por segundo) e continuaria a passear neste ritmo se não desaparecesse. Em menos de 1 segundo ele atravessaria as paredes do LHC e se afastaria em direção ao espaço. A única maneira de ele permanecer na Terra é se sua velocidade for diminuída a 15 km por segundo. E, supondo que isto ocorresse, ele iria para o centro da Terra, devido à gravidade, mas continuaria não sendo ameaçador. Para representar perigo, seria preciso que ele adquirisse massa, mas com o tamanho de um próton, ele passaria pela Terra sem colidir com outra partícula (não parece, mas o mundo ultramicroscópico é quase todo formado por vazio), e ele só encontraria um próton para somar à sua massa a cada 30 minutos a 200 horas. Para chegar a ter 1 miligrama, seria preciso mais tempo do que a idade atual do universo.
O cientista do MIT, Ph.D em Astrofísica pela Universidade de Bolonha, o brasileiro Gabriel Moraes Ernst, considera a teoria concernente com as principais vertentes de análise, ao considerar a aplicabilidade da transferência de pósitrons com base na massa do buraco negro gerado.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008




SANKOFA: MATRIZES AFRICANAS DA CULTURA BRASILEIRA
(Selo Negro Edições, 4 volumes, vários autores org. Elisa Larkin Nascimento)

Abdias Nascimento, artista, escritor e ativista da causa negra, dono de uma trajetória que reluziu, ainda mais, nos anos 70, no exílio, quando conquistou lugar entre as lideranças pan-africanistas na África e nas Américas, já de volta ao Brasil, em 1991, tornava-se o primeiro titular da então criada Secretaria de Estado de Defesa e Promoção das Populações Afro-Brasileiras, no governo do Estado do Rio e Janeiro. No cargo, viabilizou a criação de um curso de extensão universitária, ministrado na UERJ. À frente desse curso, chamado “Sankofa” (em referência a um ideograma africano de significado altamente filosófico: “nunca é tarde para voltar e recolher o que ficou para trás”), esteve sempre sua esposa, parceira e seguidora, a professora Elisa Larkin Nascimento.

Escritora, autora de importantes ensaios, mestra em Direito e Ciências Sociais pela Universidade do Estado de Nova Iorque, além de doutora em Psicologia pela USP, Elisa, nascida nos EUA e radicada no Brasil desde a década de 80, é responsável também pelo conjunto de obra ora resenhado.

Publicada, primeiro, em forma de apostilas de apoio ao curso Sankofa, a coletânea foi, depois, editada em parte. E vem a público, agora, em versão integral de 4 volumes, em um momento de especial importância para os estudos africanos no País.

Conquista da militância pelos direitos civis dos negros, a Lei nº 10.639/2003, tornando obrigatório o ensino de História da África e do legado africano à cultura brasileira, veio contemplar, quase vinte anos depois, os principais objetivos do Sankofa. E esses objetivos eram, exatamente, mostrar que as histórias e as culturas africanas e afro-brasileira dizem respeito não apenas aos descendentes de africanos, mas ao Brasil como nação à humanidade como um todo.

Em seu primeiro volume,”A Matriz Africana no Mundo”, a coleção ora publicada mostra porque a noção da África como berço único da humanidade é um dos dados que hoje se impõem, com força cada vez maior, nos estudos humanísticos interdisciplinares. Assim, entenderá o leitor porque é preciso conhecer a África para compreender a origem das primeiras civilizações, a formação do mundo antigo e suas conseqüências na História contemporânea. E, para tanto, o livro não só introduz o leitor à saga da resistência africana ao escravismo e ao colonialismo, base do surgimento das modernas nações americanas, como também mostra as implicações dessa dinâmica nas relações entre a África e o Brasil.

O segundo e o terceiro volumes – “Cultura em Movimento” e “Guerreiras da Natureza” -- abordam os fundamentos africanos da cultura brasileira e a relevância do combate ao racismo anti-negro para o todo da sociedade brasileira, inclusive na educação. Ambos os livros destacam o papel da mulher negra e da religiosidade afro-originada na formação da cultura brasileira, bem como a importância do vitalismo africano nas ações ambientalistas. E, no quarto volume, destaca-se o ensaio do advogado Hédio Silva Jr. sobre os abusos de direito hoje cometidos, contra as religiões afro-originadas, pelas seitas neo-pentecostais, em todo o Brasil.

No quarto volume, “Afrocentricidade”, a coleção apresenta, de forma pioneira, as idéias de intelectuais africanos e afro-americanos que, a partir das propostas dos sempre lembrados Cheik Anta Diop e W.B. DuBois, vêm revolucionando o conhecimento sobre a contribuição do pensamento filosófico africano para o desenvolvimento do saber no mundo contemporâneo.

Apesar de vigorar já há quatro anos a Lei nº 10.639, os recursos para efetivação de seu cumprimento ainda são bastante escassos, diante da crescente demanda. Que não é apenas quantitativa, mas principalmente de qualidade. Por isso, a coleção Sankofa cumpre com os objetivos legais a partir de um novo ponto de vista, com pesquisas e reflexões construídas sobre novas bases epistemológicas. E, isto, num contexto em que a falta de conhecimento sobre suas origens e identidade contribui para que muitos afro-descendentes sofram de baixa auto-estima, o que tolhe seu acesso pleno às oportunidades e mina sua capacidade de lutar por direitos.

Os textos da coleção Sankofa levam assinaturas de peso. Neles, estão, entre outros, além da organizadora, o historiador afro-americano Molefi Kete Asante, principal teórico do afrocentrismo contemporâneo; os africanos Anani Dizidzieyo, sociólogo ganense, radicado nos EUA; Michael Hamenoo, também de Gana, e os angolanos Francisco Romão da Silva e Ismael Diogo. Além destes, integram também o elenco de autores, Carlos Moore, etnólogo afro-cubano, doutorado pela Universidade de Paris; os afro-brasileiros Edna Roland, Joel Rufino dos Santos, Nei Lopes e Sueli Carneiro, entre outros. Além destes, Sankofa reproduz, também, textos das já falecidas Beatriz Nascimento e Lélia Gonzalez, docentes fundadoras do Sankofa.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

O alemão espreitou pela janela e viu dois jovens negros se encaminharem para um canto da praça. Era uma noite fria e, na pequena cidade da Alemanha, ninguém circulava nas ruas. Por isso, ele fixou a atenção naqueles dois negros, de tranças "rasta". Viu como eles segredavam entre si e arrastavam objectos estranhos como se fossem pedaços de troncos. Chamou pela mulher para apurar a vigilância sobre os estranhos. Foi então que reparou que os jovens africanos começavam a fazer uma fogueira. Quando as chamas se tornaram mais visíveis, o alarme foi prontamente passado para a esquadra da polícia mais próxima.
Num ápice acorreram agentes policiais que abordaram os incendiários. Os jovens não falavam alemão e o entendimento tardou. Juntaram vizinhos, curiosos e apreensivos. Aos poucos, tudo se esclareceu: os moços eram dois moçambicanos que faziam parte de um agrupamento musical que actuava na sala de espectáculos que dava para a praça.
O que eles faziam ali, num recanto da praça, era afinar os seus instrumentos musicais. Os tambores preparam-se no afago do fogo. Como se tivessem saudades da fogueira que acende histórias na noite africana.
Em poucos minutos, a situação amainou e os alemães se riram. Alguns acederem ao convite dos jovens africanos e foram assistir ao espectáculo. E ali escutaram o crepitar de um outro fogo que se chama batuque. Os tambores ganhavam o seu nome próprio: ngomas. As marimbas renasciam em timbilas. E os jovens africanos ressurgiam como o Timbila Muzimba. Naquela cidade alemã ressoava, pela primeira vez, o pulsar de um país chamado Moçambique.
E os alemães foram vencendo um frio que era mais de dentro do que fora. O casal que denunciou os falsos incendiários surpreendeu-se cantando, dançando e festejando a vida. E entenderam por que razão aquele grupo de jovens era aclamado dentro e fora do seu país. Porque esses jovens andam acendendo fogueirinhas pelo mundo afora, afinando não apenas os tambores mas os corações da gente.
Vivemos num momento de desespero, em que todos dias somos sacudidos pela violência cega de homens-bomba que se sacrificam as suas vidas e se lançam contra as vidas de outros. Pois, existem, outros jovens que fazem deflagrar esperança e criam mais vida, mais pontes de entendimento e afecto. Esses são os homens-bombo.

Mia Couto
Maputo, 19. Maio.04

sexta-feira, 5 de setembro de 2008



Grande representante da cultura popular brasileira, Mestre Salu morreu no último domingo, aos 62 anos, no Recife. Manoel Salustiano Soares foi vítima de uma arritmia cardíaca provocada pelo mal de Chagas, doença que enfrentava há 20 anos. Considerado um dos precursores do manguebeat, o artista dedicou sua carreira à preservação de patrimônios como o forró, o maracatu, o mamulengo e a ciranda.

Rabequeiro, dançarino e artesão, Salu foi mestre de artistas como Chico Science, Siba e Lúcio Maia, da Nação Zumbi. Apesar de seu precoce envolvimento com a música, foi somente aos 54 anos - com 45 de carreira - que ele lançou seu primeiro disco, Sonho da Rabeca - com contracapa assinada pelo genial escritor Ariano Suassuna. Outros três álbuns completam sua curta, porém rica e interessante, discografia.

Nascido em Aliança, em Pernambuco, Mestre Salu apresentou sua arte não apenas ao Brasil, mas a países como Cuba, França, EUA e Bolívia. Sempre acompanhado por sua rabeca, o artista provou a força e a universalidade das manifestações populares do Nordeste. Pelo conjunto de sua obra, recebeu prêmios da Universidade Federal de Pernambuco e da Ordem do Mérito Cultural. Salustiano deixou mulher, 15 filhos e, certamente, uma imensurável contribuição à legítima música popular brasileira.


Axé!